Brasilienses fora do plano

Aqui da Dinamarca, semanas atrás li com inveja artigos e comentários sobre a série de televisão “Felizes para sempre?” rodada em Brasília, minha cidade natal, e que foi exibida semanas atrás pela TV Globo. Sou da primeira geração de brasilienses e me alegro por ver que produções televisivas e cinematográficas vêm mostrando ao resto do país a Brasília que existe além da Praça dos Três Poderes e da Esplanada dos Ministérios.

Será que se viu na série global?  Foto de Ricardo Penna, via Fotos Públicas.
Será que ele se viu na série?
Foto de Ricardo Penna/Fotos Públicas.

Mas um comentário sobre a série, feito por uma amiga no Facebook, me fez pensar. Segundo ela, os brasilienses estariam se vendo na série, opinião corroborada em blogs e por uma reportagem do Correio Braziliense intitulada “Brasília se vê na tevê em minissérie global – e muitos brasilienses gostam”. Nelas, alguns dos moradores da cidade expressaram seu entusiasmo pela produção global, que estaria reforçando “um sentimento que andava meio perdido: o orgulho dos brasilienses.”

Ao ler tanto elogio à produção, imediatamente me vieram várias perguntas à cabeça. A que orgulho, a que brasilienses e a que Brasília os comentários positivos sobre a série estariam se referindo? Quem conhece bem Brasília sabe que a cidade monumento das imensas áreas verdes, espaços amplos, ruas planejadas e construções desenhadas pelo grande Oscar Niemeyer estão restritas à área em forma de cruz, o Plano Piloto, e os bairros ricos ao redor.

No restante do quadrado, nas chamadas cidades satélites, onde a maioria dos brasilienses vive, a realidade é gritantemente diferente. Nas cidades bairros da periferia do Plano Piloto a falta de planejamento urbano e ambiental não deixou espaço para o verde, reduziu ao mínimo as áreas públicas para convívio social e tornou o trânsito caótico. Lá, gramados e canteiros em vias públicas são raros e a maior parte dos pouquíssimos parques infantis e quadras esportivas estão em péssimo estado de conservação.

Brasilienses do Plano Piloto reclamam quando uma calçada é quebrada ou quando árvores de uma quadra residencial são derrubadas para construção de um posto de gasolina. Enquanto isso, muitos brasilienses das cidades satélites nem sabem o que é calçada nem arborização em suas ruas. Se querem calçadas, eles mesmos têm de construí-las, o que invariavelmente resulta em calçamentos que mais parecem mosaicos desordenados de acimentados e pedras, cada pedaço com um tipo de material e num nível diferente do outro, o que dificulta e às vezes até impede o movimento dos pedestres. Se querem árvores, eles que as plantem. Felizmente, muitos o fazem, embora outros prefiram evitá-las por temer que sirvam para esconder assaltantes à noite.

Adoro a Brasília do traçado que parece um avião e quero muito que seu plano original seja preservado mas, embora me considere brasiliense da gema, filha de pioneiros que chegaram ali no final dos anos 50, a minha intimidade com o Plano Piloto só veio depois que entrei na Universidade de Brasília. Durante quatro anos vivi na moradia universitária destinada a estudantes que não tinham condições de pagar os alugueis exorbitantes do Plano Piloto. Depois, quando deixei a universidade, morei na parte norte da cidade, a Asa Norte.

Porém, antes da minha vida universitária, eu já era uma brasiliense ou, pelo menos, me sentia como tal. Só que uma brasiliense periférica, vinda da geograficamente próxima (23 km) e socialmente distante cidade-satélite de Taguatinga. Na minha vida de suburbana, os monumentos do Plano Piloto foram apreciados pouquíssimas vezes em passeios de fim de semana dificultados pela precariedade do transporte público no Distrito Federal.

Nas raras vezes em que minha família visitou os poucos amigos que tinha no Plano Piloto, eu me maravilhava com todo aquele verde entre os prédios das quadras residenciais. Mais pareciam parques, para onde os filhos das amigas da minha mãe me levavam para brincar.

Outras oportunidades para ver o distante Plano Piloto aconteciam quando eu acompanhava minha mãe ao trabalho dela. Nessas ocasiões, a maior parte do tempo eu passava no escritório onde ela trabalhava, me distraindo com leituras, dever de casa ou um passeio na biblioteca que havia no prédio.

Aquela cidade linda que eu via em visitas raras ou da janela de um ônibus era um cartão-postal que me enchia os olhos e a imaginação. As passarelas subterrâneas me fascinavam e as avenidas largas me faziam sentir orgulho da capital do meu país. As obras de Niemeyer me encabulavam por um motivo prosaico: como é que se mantinham tão brancas apesar da terra vermelha do cerrado que ali em Taguatinga coloria lençóis estendidos no varal e encardia os pés das crianças que insistiam em brincar descalças?

Eu olhava aquela cidade bonita e distante com admiração e sem ressentimento. Eu era feliz na minha cidade-satélite e só na adolescência comecei a me dar conta de que a cidade tinha pouquíssimo a oferecer em opções culturais e de lazer. Eu adorava morar em casa, ter um quintal que se estendia pela rua para brincar e o cerrado para explorar ao alcance de uma caminhada de cinco minutos.

Mas me incomoda saber que os moradores do Plano Piloto ainda acham que os brasilienses se veem em cenas onde os personagens circulam pelas superquadras do Plano Piloto ou praticam esportes aquáticos no Lago Paranoá. Na verdade, a grande maioria dos brasilienses não circula nas superquadras nem tem acesso à prática de esportes aquáticos no Lago.

É muito desconhecimento ou mania de quem só vê o próprio umbigo achar que os brasilienses se emocionam ao ver uma cena em que uma atriz se recosta numa parede de cobogos. Arrisco dizer que a grande parte dos brasilienses nunca nem entrou num desses prédios e nem sabe que aquelas grades de concreto se chamam cobogos.

Muitos moradores da área demarcada pelo traço de Lúcio Costa e arredores assumem que o que define a identidade do brasiliense está limitado ao que ocorre e existe no Plano Piloto. As experiências e referências dos que vivem fora dessa área, portanto, não contribuem para definir o que é ser brasiliense numa apropriação “indébita” de identidade motivada, calculo, por ignorância e desinteresse.

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