Ciclistas: vexados em São Paulo, amados na Dinamarca

Enquanto a Justiça determina a paralisação das obras das ciclovias e ciclofaixas na cidade de São Paulo, aqui na Dinamarca, um dos países onde mais se pedala no mundo, uma nova campanha quer fazer ainda mais gente usar a bicicleta. Quatro prefeituras e diversas organizações não-governamentais e acadêmicas se juntaram numa campanha cuja meta para 2018 é aumentar em um por cento número atual de viagens de bicicleta feitas pelos dinamarqueses. Se bem-sucedida, os dinamarqueses farão 50 milhões de viagens a mais do que já fazem anualmente.

Campanha
Campanha quer colocar mais gente para pedalar na Dinamarca.

Por trás da campanha há um dado preocupante: embora o aumento do tráfico de bicicletas tenha aumentado na capital Copenhague, no resto do país pedala-se hoje 30 por cento menos do que se pedalava 30 anos atrás. Embora 9 por cento dos dinamarqueses pedalem diariamente, outros 14 por cento nunca pedalam.

Os organizadores da campanha intitulada “Pegue a bicicleta, Dinamarca” (“Ta’ Cyklen Danmark”, em dinamarquês) querem convencer os dinamarqueses a pedalar principalmente nas rotas curtas, de no máximo 5 km. Um em cada quatro dinamarqueses usa o carro diariamente e é esse grupo que a campanha pretende atingir.

Bons argumentos não faltam: a estatísticas mostram que os ciclistas vivem em média quatro a cinco anos a mais do que os não ciclistas. Além disso, pesquisas indicam que apenas 30 minutos pedalando por dia já são suficientes para diminuir o risco de doenças cardíacas, diabetes e câncer. Além dos argumentos, a campanha inclui eventos e sorteio de prêmios para ciclistas.

O estímulo do uso da bicicleta para transporte urbano na Dinamarca contrasta tanto com a oposição que as ciclovias e ciclofaixas vem recebendo em São Paulo que dá a impressão de que a cidade brasileira vive num outro tempo, com décadas de atraso em relação ao tempo vivido na Dinamarca.

Depois de ler sobre os argumentos da promotora Camila Mansour Magalhães da Silveira para solicitar a interrupção das obras à Justiça, concluo que, na melhor das hipóteses, ela agiu por ignorância. Mas, na pior das hipóteses, ela agiu politicamente para defender um pequeno grupo de cidadãos incomodados com a concorrência das bicicletas pelo espaço urbano. Em qualquer caso, uma ação lamentável.

Para saber mais sobre o assunto:

Ciclovias e bicicletas na Dinamarca (neste blog)

A cidade sobre duas rodas

Bicicleta: amor para toda a vida

A paralisação das obras das ciclovias e ciclofaixas na cidade de São Paulo:

Ciclistas atropelam promotora que interrompeu ciclovias

Paralisar ciclovias é uma decisão “arbitrária e irresponsável”, afirma especialista

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2 comentários Adicione o seu

  1. Regina disse:

    Acho que essa atitude vem, em grande parte, da ignorância das pessoas. Faz-me lembrar a época em que surgiram as vacinas, no Brasil. Houve até assassinatos aos agentes da Saúde que se aproximavam de certas regiões, para praticar as vacinações…

    Muitos pensam que, a posse de um automóvel, os faz “ascender-se” na sociedade! Já imaginou as senhoras indo e vindo a supermercados, com o seu bebê sentado na garupa de uma bicicleta, transportando-os para as creches, antes de se dirigir ao trabalho? Sim, aquelas que cuidam das suas manicures semanalmente…
    Isso é comum na Dinamarca, Holanda e outros lugares europeus e asiáticos.Mas no Brasil, parece que vamos ter um longo caminho pela frente..

    Talvez seja preciso que os sistemas de transporte colapsem de vez, para que se aceite, enfim, as ciclovias e os transeuntes passem a aderir a bicicleta, também, como transporte.

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  2. Regina disse:

    Excelente e oportuno artigo da jornalista Margareth Marmori.

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