Imigrantes viram “material” de campanha na corrida por votos

Dias atrás, com a convocação das eleições parlamentares na Dinamarca, foi dada a largada para a disputa para ver quem é o político que, na caça desesperada por atenção e votos, ousa mais nos ataques a imigrantes e refugiados.

Cartaz dos sociais-democratas dinamarqueses, 2015.
Cartaz dos sociais-democratas dinamarqueses, com a primeira-ministra Helle Thorning-Schmidt, 2015.

O aquecimento para a “competição” começou há alguns meses e um exemplo curioso foi o “desabafo” da parlamentar Inger Støjberg, do partido de centro-direita Venstre. Ela publicou em sua página no Facebook um comentário aparentemente furioso intitulado: “Quando é que vocês vão aprender a se comportar direito?” A política se referia a um grupo de “garotos imigrantes” que, com barulho, conversa e arremesso de doces, teriam destruído a sessão de cinema dela e de uma amiga. Indignada, entre outras coisas, ela escreveu: “Vocês vivem na Dinamarca e eu simplesmente não entendo que vocês não se esforcem para se comportar direito… Eu espero que vocês se tornem parte da nossa sociedade”.

Nas mídias sociais, o desabafo de Inger Støjberg foi apoiado por milhares de dinamarqueses, condenado por outros milhares e criticado por imigrantes e seus descendentes que se sentiram ofendidos pelas palavras da política. Muitos questionaram como ela havia concluído com tanta convicção que os adolescentes eram imigrantes. Eles poderiam até ser filhos de imigrantes, mas muito provavelmente eram jovens nascidos na Dinamarca, argumentaram alguns. Outros reclamaram da generalização, especialmente porque o tipo de comportamento descrito pela política também é comum entre adolescentes filhos de dinamarqueses.

Eu, com meus botões, achei graça. Independentemente do que a parlamentar deseje, esses adolescentes são parte da sociedade dinamarquesa mesmo que sejam vistos pelas outras partes como um grupo estranho causador de problemas.

“Se você vem para a Dinamarca, tem de trabalhar”

Cartaz do Partido Conservador, Dinamarca 2015.
Cartaz do Partido Conservador, Dinamarca 2015.

Em março, o partido Social-Democrata, atualmente no poder na Dinamarca, ganhou pontos na disputa por atenção às custas dos estrangeiros. Preparando-se para a eleição, o partido soltou uma campanha cujo slogan em português é algo como “Se você vem para a Dinamarca, tem de trabalhar” (Skal du til Danmark, skal du arbejde). Segundo a campanha, há imigrantes demais no país que não trabalham e precisam “contribuir com aquilo que eles conseguem contribuir”. Segundo o órgão oficial de estatísticas do país, Danmarks Statistik, em 2014, cerca 40% dos imigrantes vindos de países não ocidentais e 20% dos oriundos de países orientais estavam desempregados.

Não é preciso fazer uma avaliação profunda do cenário político dinamarquês para concluir que o objetivo da campanha é claro: recuperar os eleitores que abandonaram o partido e passaram a apoiar o Partido do Povo Dinamarquês, de extrema direita, que defende regras severas para controlar a entrada de imigrantes no país e que, segundo as pesquisas, poderá chegar a ganhar um número recorde de mandatos e se tornar o terceiro maior partido do país.

Em abril foi a vez do partido Conservador soltar nas ruas cartazes de uma campanha contra a suposta islamização do país. A campanha compara o islamismo ao nazismo mas a mensagem dos cartazes deixa dúvidas sobre quem o partido considera um problema: o extremismo ou o islão. A dubiedade da campanha virou piada na internet e mídias sociais, onde proliferaram versões alternativas do cartaz e até um site para quem quiser criar sua própria versão da peça de campanha (o meu cartaz está aqui do lado).

Minha sugestão para um bom cartaz de campanha, feito com no site http://csigerstop.lzy.dk.
Minha sugestão para um bom cartaz de campanha, feito através do site http://csigerstop.lzy.dk.

Independentemente da competência dos estrategistas de marketing a serviço dos partidos, polêmicas e campanhas criadas por políticos mostram o quanto imigrantes e refugiados são importante no debate político da Dinamarca. Foi ancorado nesse tema que o Partido do Povo Dinamarquês deixou de ser uma força inexpressiva para agora ameaçar até mesmo a hegemonia dos grandes blocos partidários de esquerda e direita. O partido, que tinha 22 das 179 cadeiras do parlamento dinamarquês, poderá conquistar 32 mandatos nas próximas eleições, se as prognoses dos institutos de pesquisa se confirmarem.

 

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