Eleições na Dinamarca e o medo que dá

Evolução do número de mandatos conquistados pelo Dansk Folkeparti desde sua primeira eleição, em 1998, e a porcentagem do total de votos recebidos pelo partido.
Evolução do número de mandatos conquistados pelo Dansk Folkeparti no Parlamento dinamarquês (são 179 mandatos no total) desde 1998, e a porcentagem do total de votos recebidos pelo partido. Source: Wikipedia e Politiken.

Na escola da minha filha, num bairro no noroeste de Copenhague, alguém espalhou a notícia de que se o liberal Lars Løkke Rasmussen se tornasse o novo primeiro da Dinamarca, todos os estrangeiros seriam expulsos do país. O boato a fez chorar e ela só se acalmou depois que, em casa, o pai dela e eu explicamos inúmeras vezes que aquela história não tinha fundamento.

A história da expulsão dos estrangeiros não é verdadeira e só é defendida por um grupo neonazista dinamarquês sem representação no Parlamento, mas dá uma ideia de como o debate sobre estrangeiros tem repercutido na sociedade dinamarquesa.

O grande vencedor das eleições parlamentares dinamarquesas realizadas ontem foi um partido com visões claramente xenófobas. O Dansk Folkeparti (DF) se tornou o segundo maior partido dinamarquês, conquistando 21 por cento dos votos. Com a massiva votação conquistada pelo DF e a performance fraca de partidos aliados, a primeira-ministra social-democrata Helle Thorning-Schmidt perdeu a maioria no parlamento e renunciou ao cargo de líder de seu partido. Nos próximos dias, os partidos da ala conservadora deverão indicar o novo primeiro-ministro, que provavelmente será mesmo Lars Løkke Rasmussen, líder do Venstre, o terceiro maior partido dinamarquês. Rasmussen terá de governar na incômoda situação de depender do apoio de um partido que ficou maior do que o seu DF.

A preocupação da minha filha me fez pensar nos colegas de escola dela que pertencem a famílias muçulmanas e que também começam a entender o discurso preconceituoso que infesta a política e a mídia dinamarquesas. O ódio é contagiante e provoca medo e insegurança que levam à desconfiança e a mais ódio. Mesmo que minha filha não tenha razão para se preocupar, é impossível se manter imune ao modo sempre negativo com que a classe política e boa parte da mídia se referem aos imigrantes.

Mas o resultado das eleições parlamentares de ontem me levaram de volta a um jogo infantil misturado com autoflagelo mental que repito todas as vezes que os dinamarqueses vão às urnas. É um jogo de perguntas que me faço e eu mesmo respondo mais ou menos assim:

– E se os partidos liberais e conservadores chegarem ao poder com o apoio do DF?
– Já aconteceu.
– E se o apoio ao DF crescer mais nessas eleições?
– Aconteceu nessa e em todas as cinco eleições anteriores.
– E se o DF se tornar o terceiro maior partido da Dinamarca?
– Já se tornou.
– E se o DF se tornar o segundo maior partido da Dinamarca?
– Já é.
– E se o DF participar do governo?
– Pode ser que se torne.
– E se o DF se tornar o maior partido da Dinamarca?
– Ele não pode governar sozinho.
– E se o DF conseguir maioria absoluta no Parlamento?
– …

Chega de jogar. Vou tomar um café.

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4 comentários Adicione o seu

  1. Daiane Gaby disse:

    Olá Margareth!

    Morei durante alguns meses na Dinamarca e sinto muito não ter conhecido seu blog naquela época, pois seria de grande valia!

    Curto muito seus posts, parabéns!

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    1. Olá, Daiane! Estive viajando e só agora vi seu comentário. Muito obrigada. Fico feliz por saber que você gostou do blog e espero que você volte a visitá-lo mesmo não morando mais na Dinamarca. Abraços!

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  2. marilza disse:

    Nossa, Margareth, que horror! Acho que isso, na política dinamarquesa, é quase a mesma coisa na política mundial, só mudam os partidos e as ideologias, mas as práticas são parecidas. Decididamente não existe honestidade nos discursos. Tudo é dito para enganar, camuflar, dar falsas esperanças de melhoras e desenvolvimento social, e nas ideologias de centro direita e centro esquerda, é ainda pior, porque os políticos não importam-se com a opinião pública, mas na perpetuação dos cargos seus, e de seus bajuladores. Tá realmente nojento e insuportável essa situação, falo, nesse cado, do Brasil. Quanto a sua filha, é lamentável essa informação! As crianças devem ser poupadas dessas safadezas políticas. Abraço

    Curtido por 1 pessoa

    1. Concordo, Marilza. As crianças deveriam mesmo ser poupadas. Abraços.

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