Calafrios de imigrante na terra da paz e segurança

As últimas eleições parlamentares na Dinamarca aconteceram há mais de um mês, mas ainda me lembro da sensação que tive na manhã seguinte à votação, quando já estava clara a vitória dos partidos de liberais e de direita. Antes de sair de casa me veio um pequeno calafrio na nuca e uma dúvida meio idiota à cabeça: “Depois de ontem será que é seguro para uma imigrante como eu sair na rua?”

Centro de Aabenraa
Centro de Aabenraa, no sul da região continental da Jutlândia, onde o DF arrebanhou 31,8% dos votos. By Hubertus – under CC BY-SA 3.0 via Wikimedia Commons

Por um momento imaginei-me alvo de agressões vindas de aliados do partido nacionalista e xenófobo Partido do Povo Dinamarquês (em dinamarquês “Dansk Folkeparti” ou DF), que havia recebido 21,1% dos votos e se tornado o segundo maior partido do país.

Claro que aquela dúvida foi uma tolice. A Dinamarca continua sendo um país seguro, inclusive para imigrantes. A propósito, um centro internacional de pesquisa dedicado a estudos sobre paz, o Instituto para Economia e Paz (em inglês, Instituto for Economia and Peace), há pouco tempo publicou seu relatório anual que aponta a Dinamarca como o segundo país mais seguro do planeta, atrás apenas da Islândia. Portanto, não há razões para se sentir insegura ao sair de casa numa manhã em Copenhague.

Mas mesmo com todo esse raciocínio, uma outra pergunta me escapa:

– Posso me sentir segura num país onde uma em cada cinco pessoas vota num partido que abomina imigrantes?

Recorro aos números mais detalhados dos resultados das eleições para afastar temores e ver que , onde moro, em Copenhague, o horror aos imigrantes é menor do que no resto do país. No meu bairro, o DF recebeu só 12% dos votos. Num bairro vizinho, Nørrebro, onde há uma das maiores concentrações de imigrantes no país, o partido recebeu apenas 5,4% dos votos. Portanto, em Copenhague, aquela chispa de preocupação faz ainda menos sentido.

Porém, no município vizinho, em Hvidovre, a apenas sete quilômetros de onde moro, a votação do DF foi bem mais significativa: 25,4%. O mapa que mostra a distribuição geográfica dos votos mostra que quanto mais eu me afastar de Copenhague, maior a probabilidade de encontrar mais eleitores do partido. A maior concentração deles está no sul do país, na região chamada Jutlândia do Sul (Sønderjylland), que faz fronteira com a Alemanha. Lá, o DF foi o preferido dos eleitores, chegando a arrebanhar mais de 30% dos votos em alguns distritos eleitorais.

A distribuição geográfica dos votos mostra que o DF é mais forte nas áreas mais remotas do país, nas pequenas cidades e no entorno dos maiores centros urbanos. Essa distribuição corrobora o argumento de alguns observadores de que a votação história do DF se deveu menos ao problema da imigração e mais como uma reação contra as políticas centralizadores que os últimos governos vêm adotando.

Desde o mandato do primeiro-ministro, Anders Fogh Rasmussen (2001-2009), do partido liberal Venstre, o governo dinamarquês têm adotado medidas para promover a centralização da administração estatal e da oferta de vários serviços públicos como saúde e educação. Economia e aumento da eficiência têm sido usados como argumentos para justificar tais políticas que, no entanto, tem acentuado o esvaziamento econômico e populacional de pequenos núcleos urbanos e das áreas mais remotas do país.

Em sua campanha eleitoral, o DF prometeu defender a valorização das regiões periféricas do país. Aparentemente, os eleitores acreditaram na promessa já que foi nessas áreas que o partido teve votação mais expressiva. O estranho é que muitos desses eleitores devem ter se esquecido que o DF foi um dos partidos que, como parte da base aliada dos governos liberais recentes, votou a favor das políticas de centralização da máquina e dos serviços públicos.

Ainda assim, um imigrante otimista pode ser tentado a concluir que a principal razão para muitos eleitores terem escolhido o DF nas últimas eleições foi a esperança de que o partido trabalhará pelas regiões periféricas do país.

Pensar que a hostilidade contra os estrangeiros foi uma motivação secundária na hora do voto no DF é até consolador. Porém, desde as eleições, sempre que estive em cidades dinamarquesas fora de Copenhague, não saiu da minha cabeça que 1 em cada 4 ou, dependendo do lugar, 1 em cada 3 dos adultos que eu via nas ruas, supermercados e praças havia votado em um partido político que quer ver os imigrantes bem longe do país deles. O pensamento, quase inevitável, me fez algumas vezes desejar mesmo estar bem longe dali.

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