A escola pública dinamarquesa em debate

As crianças dinamarquesas voltaram às aulas nesta segunda-feira, depois das férias de verão que duraram seis semanas. Aqui na Dinamarca o período letivo nas escolas de primeiro e segundo grau começa sempre em agosto e este ano o retorno às aulas significou também o reinício do debate entre políticos, professores e profissionais de ensino sobre a ampla reforma escolar aprovada em 2013 e que entrou em vigor no ano passado.

Escola pública de Copenhague. Foto de © www.mysona.dk via Wikimedia.
Escola pública de Copenhague. Foto de © http://www.mysona.dk via Wikimedia.

Um dos pilares da reforma escolar foi o aumento da carga diária de aulas dos alunos da primeira à nona série. Ao contrário do que muitos brasileiros poderiam pensar, a escola na Dinamarca não é em tempo integral. Até o ano letivo de 2013/2014, os alunos da primeira à terceira série, ficavam apenas cinco horas por dia na escola. Desde o ano passado, a carga diária pulou para seis horas diárias, incluindo recreio e pausas, num total de 30 aulas semanais. Já as crianças da quarta à sexta série agora têm uma carga semanal de 33 horas e as maiores, da sétima à nona série, de 35 horas*.

As crianças almoçam na escola mas, a propósito, ao contrário do que muitos brasileiros poderiam imaginar, as refeições não são gratuitas. Nas escolas de Copenhague e alguns outros municípios do país, os pais podem pagar por um serviço mantido pelo governo que fornece refeições diariamente. Em Copenhague, cada refeição custa 24 coroas (cerca de 12,50 reais). Quem não paga pelo serviço, precisa trazer comida de casa ou comprar alimento em cantinas escolares ou lanchonetes próximas à escola que frequentam.

De modo geral, depois do horário escolar, as crianças passam o resto do dia em instituições onde lancham e podem brincar e desenvolver atividades diversas sob o cuidado e orientação de pedagogos e auxiliares. Aliás, nem essas instituições nem as creches e jardins de infância são gratuitos, embora todos recebam subsídios públicos. Como exemplo, a mensalidade de uma instituição para crianças do pré-escolar à terceira série é de 1104 coroas (574 reais) por mês*.

Uma das consequências da reforma é que o tempo que as crianças passam nessas instituições ficou bem menor e se tornou mais difusa a divisão de tarefas entre pedagogos e professores. Antes, no horário de aulas, os pedagogos funcionavam como assistentes dos professores para, por exemplo, ajudar a manter a disciplina e um bom convívio social entre as crianças e organizar excursões e eventos. Depois do horário das aulas, os professores praticamente não tinham mais contato com os alunos e o pedagogos assumiam inteiramente o cuidado com os alunos. A reforma obriga os pedagogos a se envolverem mais no ensino, principalmente através de sessões de reforço escolar e do envolvimento com tarefas escolares.

Outra mudança importante trazida pela reforma foi o reforço do ensino de línguas estrangeiras. As crianças passaram a receber ensino de inglês já a partir da primeira série e de alemão ou francês a partir da quinta série. Com a reforma também há uma tentativa de dar mais ênfase a atividades físicas para promover a saúde e combater a obesidade infantil.

Mas é o aumento da carga horária o que mais tem causado debate. O maior objetivo da reforma foi melhorar o desempenho dos estudantes dinamarqueses, que é baixo se comparado ao de outros países desenvolvidos. No ranking de 2012 do Pisa, um estudo da Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Económicos (OCDE), a Dinamarca ficou apenas na média entre os 44 países pesquisados, com resultados bem abaixo de nações asiáticas como a Coreia e Singapura. Enquanto a média geral foi de 500 pontos, os estudantes dinamarqueses fizeram apenas 497.

A dúvida é se o simples aumento da carga de aulas pode ajudar a melhorar o desempenho dos estudantes dinamarqueses. Segundo uma pesquisa encomendada pelo jornal Berlingske Tidende (http://www.b.dk/nationalt/de-nye-lange-skoledage-et-tiltraengt-loeft-eller-boernemishandling) , um terço dos pais acha que seus filhos terão de passar tempo demais na escola. Há também políticos que já começam a discutir a possibilidade de reformar a reforma. A recém-empossada nova Ministra da Educação já prometeu uma avaliação dos resultados da reforma e correções de falhas até o fim do ano.

Eu, como mãe de uma criança na terceira série, não tenho nada contra longos dias escolares, desde que eles sejam interessantes e produtivos. Minha maior preocupação é que a pressa exagerada para que a reforma alcance resultados positivos acabe atrapalhando mais do que contribuindo para seu sucesso. Todo esse debate também deixa claro que a garantia de boa educação fundamental é um desafio constante até mesmo para países desenvolvidos como a Dinamarca.

* Valores em reais convertidos de acordo com http://www.oanda.com/currency/converter/ no dia 14/08/2015.

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