Surpresas em um galinheiro

Além de aprender dinamarquês, há uma lista de coisas que provavelmente não aconteceriam na minha vida se eu não tivesse me mudado para a Dinamarca. Não estou falando, como já li em alguns blogs de brasileiros vivendo no exterior, de ocasionalmente pintar paredes ou rotineiramente lavar o vaso sanitário. Isso eu já fazia antes de sair do Brasil. Falo de corrigir o reboco, pintar a fachada de uma casa, derrubar árvores e, mais recentemente, criar galinhas.

Bertran, Polle e Branca de Neve que, aparentemente, não quis ser fotografada.
Bertran, Polle e Branca de Neve, que ainda não havia assumido seu papel de lider e, provavelmente por isso, não quis aparecer na foto.

Decidimos criar galinhas para, no nosso caso, atender ao pedido da minha filha que queria ter bicho em casa. Antes de nos decidirmos pelas galinhas pensamos em várias possibilidades. Ninguém quis assumir a responsabilidade de caminhar duas vezes por dia com um cachorro e por isso os caninos foram eliminados da lista de opções. Apesar da minha simpatia pelos bichanos, gato, nem pensar por causa de reações alérgicas aos felinos. Coelhos? Sem graça, na avaliação da minha filha. Peixes? Bocejo. Sobrou para as galinhas, principalmente depois de concluirmos que não seria nada mau ter uns ovinhos frescos todo dia.

Criar galinhas está se tornando uma verdadeira moda na Dinamarca. Muitas famílias o fazem a partir da decisão de adotar um estilo de vida mais saudável, outras para ter sua própria produção orgânica de ovos carne e há aqueles que apenas querem estimular os filhos a viver mais ao ar livre e a ter contato com animais. Vários dos nossos vizinhos têm galinheiros, alguns há vários anos e a experiência dos pais de uma colega de escola da minha filha nos animou a partir para a empreitada.

Depois que o galinheiro foi comprado e instalado, fomos tentar comprar seus moradores. Queríamos só fêmeas e acabamos comprando-as numa chácara. Lá nos disseram ter 95% de certeza de que os três pintinhos que estávamos levando dariam belas galinhas e, como tal, elas ganharam os nomes de Bárbara, Branca de Neve e Polle.

Mas criar pintinhos na Dinamarca tem suas complicações. Aprendemos que eles não suportam baixas temperaturas e, por isso, durante mais de dois meses, passaram as noites numa varanda coberta onde providenciamos aquecimento. Depois, quando Bárbara e Polle já haviam se mudado para o galinheiro e começaram a brigar como se estivessem numa rinha, desconfiei que seríamos vítimas dos 5% de incerteza. A certeza de que havíamos comprado gato por lebre, ou melhor, galo por galinha, veio quando Bárbara danou a cantar tresloucadamente pelo quintal, incomodando o nosso sono e dos que vivem num raio de 300 metros e ameaçando destruir nossas boas relações com os vizinhos.

Branca de neve com as novas companheiras.
Branca de neve e, ao fundo, as novas companheiras.

Ainda nos apegamos à esperança de que Bárbara estivesse apenas manifestando sua autoridade sobre as companheiras de galinheiro já que, também aprendemos, há galinhas que assumem hábitos e até ganham aparência física de macho na ausência de um galo. Contei isso a algumas amigas, que não me perdoaram e impiedosamente me acusaram de me negar a encarar a identidade sexual das minhas galinhas.

No final, tivemos de nos render: rebatizamos Bárbara de Bertran e conseguimos um novo lar para ele, que agora vive numa fazenda nos arredores de Copenhague onde pode cantar sem incomodar e sem ser incomodado.

No dia seguinte ao que Bertran nos deixou, Polle assumiu o comando do galinheiro e desajeitadamente ensaiou o que até então não tinha ousado fazer: cantar de galo. Não precisamos rebatizar Polle porque, segundo me garantiram, o nome serve para ambos os sexos. Mas tivemos de arranjar uma casa nova para ele também. Achamos um comprador que o levou para viver numa chácara onde reinará absoluto num galinheiro com cinco galinhas.

Branca de Neve, a que restou, não gostou de ser abandonada e andou chorando pelos cantos depois que os companheiros sumiram. O humor dela melhorou depois que compramos duas franguinhas, batizadas de Bárbara e Daisy, nas quais ela já deu umas bicadas para mostrar quem é que manda no pedaço.

E quanto aos ovos? Bem, também aprendemos que galinhas passam por traumas, o que pode interromper a geração de ovos. Portanto, só depois que passar pelo trauma, que aliás deve ser terrível, da separação de dois machos, Branca de Neve deverá começar a botar ovos. Até lá, Bárbara e Daisy estarão adultas e também deverão começar a produção. Aí, espero, a paz reinará no galinheiro e terei ovos frescos para a omelete.

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14 comentários Adicione o seu

  1. marilza disse:

    Olá, Margareth, muito boa a ideia de criar galinhas, mas o que fará exatamente? Apenas consumir os ovos, ou também a carne? Se pretende comer a carne, quem vai matar as galinhas? rs. Na minha infância, tinha a incumbência de dar milho as galinhas, era uma diversão, também colhia os ovos. Adorava ovos quente, com uma pitada de sal e umas gotinhas de manteiga de garrafa, no café da manhã, na casa de vovó! Porém, quando vovó resolvia matar galinhas, para fazer à cabidela, era duplamente traumatizante! kkk. Um abraço.

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    1. Oi Marilza,
      Não pretendemos de jeito nenhum matar as galinhas, embora não sejamos vegetarianos. Queríamos ter bichos em casa, e acabamos escolhendo galinhas, às quais estamos nos afeiçoando. Elas são uma diversão para toda a família e nos obrigam a passar mais tempo no quintal, inclusive nos dias mais frios.
      Também me lembro do tempo em que minha avó, que morava numa chácara, matava galinhas para o almoço do domingo. Eu achava um horror, mas sempre acabava comendo com gosto.
      Abraços.

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  2. Cássio disse:

    Sempre achei que a Branca de Neve era, antes de tudo, uma forte — afinal, alguém tinham que mandar naqueles sete anões. E, como na vida, no final, as mulheres sempre ganham…Muito boa a crônica sobre as galinhas.

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    1. Obrigada, Cássio. Ela está mesmo se mostrando uma forte, apesar de volta e meia demonstrar que sente falta de seus anões, ou melhor, galões.

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  3. kristina conde disse:

    Hahahaa fantastico! poderia ter arrumado um porquinho…
    Atualmente estou procurando um studio( em Roskilde ou Copenhagen) para meu filho que vai para faculdade em Roskilde…alguma dica? parece impossivel!

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    1. Obrigada, Kristina. Se não fosse proibido criar porcos, talvez até tivéssemos pensado nessa possibilidade. 🙂

      Moradia em Copenhague e arredores é mesmo difícil de encontrar e calculo que vocês já tenham olhado na página da Universidade de Roskilde mas, em todo o caso, este é o link deles sob o assunto e inclui links de páginas de moradias para estudantes: http://www.ruc.dk/en/education/info-for-international-students/rucs-practical-guide/accommodation/

      Outro site com informacões úteis é o Study in Denmark : http://studyindenmark.dk/live-in-denmark/housing-1/how-to-find-housing

      O site de anúncios http://en.lejebolig.dk/lejebolig/koebenhavn tem informações em inglês.

      Espero que esses links possam ajudar.

      Abraços, Margareth

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  4. Alice Branco disse:

    Muito bom seu relato. E a experiência, sei que é boa – também criei galinhas no quintal enquanto meus filhos eram pequenos. Parabéns.

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    1. Obrigada, Alice. A experiência está mesmo sendo muito boa.

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  5. Adorei essa Ideia … Amei!

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    1. Fico feliz que tenha gostado, Lyvia.

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  6. Milena Rezende disse:

    Rsrsrs
    Hábito peculiar. Rsrsrs
    Gostei muito.Natureza, economia domestica e lições animais…. Muito bom.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Obrigada, Milena. Pois é, um pouquinho de cada coisa.

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