Sobre esse tal de “hygge”

Ingredientes para um "hygge". Foto de Karen Mardahl, Danish Pastry, Creative Commons CC BY-SA 2.0.
Ingredientes para um “hygge”.  Foto de Karen Mardahl, Creative Commons.

Em um daqueles nem sempre fáceis caminhos de volta para Copenhague, na livraria do aeroporto de Lisboa, dou de cara com um, não, com dois livros em português que celebram a onda feel good/autoajuda do momento: o “hygge”. Palavra dinamarquesa que, como o cafuné brasileiro, não teria tradução em outros idiomas, hygge é uma sensação que mistura aconchego e conforto. Diversos autores embarcaram na onda escrevendo sobre o fenômeno que, para alguns, ajudaria a explicar porque os dinamarqueses estão no topo do ranking criado para apontar o povo mais feliz do mundo.

Eu sabia que o tema havia virado moda no mercado editorial da Inglaterra e também já tinha lido a entrevista com uma das autoras do livro “Crianças Dinamarquesas” à revista veja, mas ainda assim fiquei surpresa ao ver que a onda havia chegado com força aos países lusófonos. Mais tarde, uma rápida pesquisa no Amazon me mostrou que a moda é ainda maior do que eu tinha imaginado. Quando procurei por livros com a palavra hygge, a lista de resultados só em inglês veio com 309 sugestões.

Transe “higuílico”

Como estou levemente curiosa para saber se esses livros confirmam minhas suspeitas de que neles os autores enaltecem desvairadamente a cultura dinamarquesa, talvez eu acabe folheando uma dessas obras na biblioteca mais próxima. No entanto, me sinto pouco tentada a comprar uma delas já que, depois de quase 18 anos vivendo na Dinamarca, considero suficiente o meu conhecimento sobre hygge. Tanto que acho quase cômica a descrição que a escritora e psicóloga norte-americana Jessica Joelle Alexander fez sobre o hygge na entrevista à Veja. Ali, o fenômeno mais parece uma forma de transe coletivo praticado em reuniões familiares que duram horas ou dias. À revista ela teria dito que, durante o hygge, as famílias abandonam os conflitos e deixam de discutir problemas relacionados ao trabalho.

A definição de hygge que encontro no meu dicionário dinamarquês-dinamarquês não bate com a descrição de Alexander. De acordo com Nu Dansk Ordbog (17a edição) hygge é algo mais singelo: é o ato de criar um clima aconchegante, acolhedor e agradável (tradução livre). Portanto, não se pratica necessariamente em família; pode ser com amigos. Nem é obrigatoriamente em grupos; pode ser perfeitamente praticado sozinho.

Na ótima crítica do The Guardian ao livro “The Book of Hygge”, encontrei uma forma menos fantasiosa de definir o que viria a ser o hygge. De acordo com a autora do livro, Louisa Thomsen Brits, hygge seria “uma sensação de pertencimento e calor humano, um momento de conforto e satisfação (tradução livre).

Com base nessas definições, fiquei imaginando situações de hygge à brasileira:

  • Com os amigos, numa noite de verão, para tomar uma cerveja estupidamente gelada e jogar conversar fora por horas a fio.
  • Sozinha, numa sexta à noite, em casa, um brigadeiro de panela, um sofá e um bom filme na TV.
  • Familiar: dia de chuva, pipoca quentinha, televisão, celular e tablets desligados, a turma toda se reúne para montar um daqueles quebra-cabeças com milhares de peças ou jogar imagem e ação.
  • Churrasco de fim de semana com parentes, amigos, amigos de amigos, o papagaio e o cachorro.
  • Junino: gente agradável, conhecida ou não, à noite, sentada em volta da fogueira cantando modas de viola.

Exclusão

Portanto, embora hygge seja uma palavra difícil de traduzir, ela define algo que eu, brasileira, nunca tive dificuldade de sentir ou praticar nem mesmo antes de morar na Dinamarca. Nem sou arrogante o bastante para imaginar que pessoas de outras culturas e vivências não consigam praticar ou sentir algo parecido.

Mas aí caiu a ficha. Talvez, na verdade, eu nunca tenha verdadeiramente compreendido o que é hygge para um dinamarquês porque uma coisa é entender o que me falam e o que está escrito, outra bem diferente é como o hygge é colocado em prática pela maior parte dos dinamarqueses.

Quando os dinamarqueses dizem hygge, eles querem dizer algo que não inclui o que é desconhecido e diferente. Para ser hygge, tem de ser praticado em família, com amigos íntimos e em pequenos grupos. Talvez por isso, com exceção de alguns poucos encontros familiares e de raríssimas ocasiões com amigos, eu nunca tenha de fato participado do hygge dinamarquês. Eu falo com sotaque, não entendo algumas piadas, me faltam referências históricas e culturais, às vezes tenho dificuldade para expressar com clareza minhas opiniões no idioma daqui e, portanto, minha participação num encontro de dinamarqueses só atrapalharia o hygge deles. Eu seria uma coisa estranha, como um antigo vaso chinês sobre a mesa numa casa decorada no moderno estilo minimalista dinamarquês.

A Dinamarca tem realmente muito o que ensinar a outros países. Há lições a serem colhidas em, por exemplo, como a sociedade dinamarquesa se tornou uma das mais igualitárias do mundo, na qualidade dos serviços públicos de saúde e educação, no transporte urbano e na prioridade dada às fontes sustentáveis de energia.

Mas, se deixarmos o marketing cultural e turístico de lado e usarmos a definição lexical do hygge, muitos dinamarqueses ainda têm muito o que aprender se um dia quiserem criar um clima acolhedor para quem é diferente deles. Infelizmente para os estrangeiros, o hygge continua sendo algo que muitos dinamarqueses preferem cultivar somente entre eles. Aliás, antes de se tornar uma ótima jogada de marketing, já era uma boa desculpa para alguns dinamarqueses excluírem os estrangeiros de seu convívio social.

Se quiser ler mais sobre o assunto:

 

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3 comentários Adicione o seu

  1. zeka4000 disse:

    Prezada Margareth,
    Achei de extrema pertinência está postagem, bem como as reflexões que você – tão habilmente – levantou sobre o tema! Posso dizer que se trata do melhor texto, escrito em Português, que já li sobre o assunto.
    Muito obrigado.
    Abraços,
    J

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    1. Muito obrigada por sua leitura e comentário. Fico feliz que tenha gostado do texto e espero que continue apreciando a leitura do meu blog. Abraços, Margareth

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  2. We agree on this, Brandy. Maybe the Danish “hygge” cannot be for us, foreigners, because it is more about how Danes create environments to reinforce and protect their own culture and sense of belonging.

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